Entrevista por Maria de Fátima Lambert

Entrevista por Maria de Fátima Lambert
February 10, 2020 João Louro

A 25 de fevereiro, tive ocasião de visitar João Louro, no seu atelier em Campo de Ourique, desenrolando-se uma conversa, a partir da qual, passados 2 dias, elaborei algumas questões que lhe enviei. A troca “simbólica” de perguntas e respostas foi por email, associada a alguns apontamentos complementares, via sms e pontuados por algumas fotografias do atelier que fiz nesse último sábado de fevereiro. O resultado segue, agradecendo ao João, todo rigor e profundidade nas suas reflexões lúcidas e pertinentes.

MFL / Na galeria Miguel Nabinho, quando da inauguração de uma curadoria de Filipa Oliveira (aqui há um ou dois anos), o João surgiu acompanhado pelos seu cães; fixei essa cena, como se fosse um episódio síntese corporalizando referências literárias (Dylan Thomas… retrato de um artista quando jovem cão; Kafka…investigações de um cão…). Daí, ocorreram-me perguntas possíveis (se os seu cães falassem…teria de os nomear, não sei como se chamam…): o que pensariam os seus cães sobre arte contemporânea? o que preferem?, estão acostumados, reagem? enfim… o João, conhecendo-os quanto sabe, o que opina, que conclusões deles apreende?

JL/ O Lennox e o Thor são os meus “buddys”… e as curiosidades que têm, não são sobre arte. São sensíveis às pessoas, aos ruídos,  os movimentos bruscos… São “compagnons de route” sem perguntarem. Mas o olhar contra-picado dos cães sempre me interrogou. E algumas vezes   utilizo essa perspetiva nas montagens que faço nas minhas exposições. Eles ensinam-me coisas, outras coisas, mas qualquer pensamento fora de exercícios especulativos , a la “Dylan Thomas” ou “Kafka”, leva-me a concluir que não há arte fora do humano. Não há pergunta fora do humano. E isso quer dizer muito de nós , pobres selvagens, demasiado selvagens ainda, mas mesmo assim estamos no topo da pirâmide evolutiva… Fazemos perguntas. Mas não há pergunta, nem arte sem o humano. Sem a cultura,  ou uma cultura débil (um tema muito em voga nos tempos que correm), só há selvagens e caímos aos trambolhões da pirâmide evolutiva e, depois de rebolar, começamos logo a rastejar como os répteis (o que eu acho que já acontece muitas vezes). Não há também “arte natural”, isto é, se um líquen numa parede se parece à esfinge do Nixon, ou se uma nuvem se parece ao coelho do Koons, isso não é arte. Só há arte no humano,e para que seja arte, deverá existir um artista que produz ou a nomeia. E todas estas operações conceptuais só são entendíveis no universo do humano.

MFL/ O boxe,com seus arquétipos, atributos e protagonismos, no cenário societário, antropológico e mítico da cultura ocidental, a meu ver, possui uma carga estética marcante. Para além daquela que subjaz aos mitos pessoais (de boxeurs emblemáticos…) fixados na história factual, quando (re)criados enquanto personagens na filmografia, por exemplo… Por outro lado… como em alguns outros desportos, na minha opinião, trata-se da concatenação de movimentos, gerando tipificações coreográficas específicas.

Além  de, parece-me, ser susceptível de propiciar um sentido a quem o pratique “traduzível”, externizável em ideias e movimentos de criação… em termos de modelos de fiscalidade que lhe seja próprio, individuado…

Ou seja, o João tem uma consciencialização do seu “corpo próprio” que diferencia ou não a dimensão física da obra a produzir? Ou esse domínio, a concentração, a coordenação, a exaustão, a superação… refletem-se em que termos (ou não)?

JL/ O boxe é uma atividade física intensa e também de resistência mental. Para além de exigir um grau de coordenação motora muito elevada, talvez uma dança imprevista, em que atacar e defender fazem parte das regras, o boxe cria uma filosofia de vida. Ele exige o respeito e valida os elementos fundadores do caráter. É uma disciplina.