FOTOCOPIAR UMA FOTOCOPIADORA…

FOTOCOPIAR UMA FOTOCOPIADORA…
October 14, 1999 João Louro

Fotocopiar uma fotocopiadora ou A era da reprodutibilidade técnica no tempo da “ovelha dolly”

 

João Louro, 1999

 

Em todas as artes existe uma parte física que não pode continuar a ser olhada nem tratada como outrora, que já não pode subtrair-se ao conhecimento e potência modernos.

Paul Valéry, “Piéces sur l’art. La conquête de l’ubiquité”

 

Por princípio a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens tinham feito sempre foi limitado por homens. Tal imitação foi também exercitada por alunos para praticarem a arte, por mestres para divulgação das obras e, finalmente, por terceiros ávidos de lucro.

Walter Benjamim, “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”

 

O homem é um animal que se interessa pelas imagens, uma vez que as reconhece enquanto tais.

Giorgio Agamben, “Image et mémoire”

 

É nos novos temas que estão prefiguradas as novas questões. Uma problemática que é inevitável e característica do “tempo a passar”.

Nossas novas questões lançadas, que respiramos e que poisam na trama de uma cultura existencial – as suas pessoas e ideias, “o” (esse) tempo, com a sua história de então, num equilíbrio qualquer entre as outras culturas -, está aquilo a que chamamos o “futuro”! (…)

Subsiste sempre o mistério, de como a história se livra dos seus aspetos mais moribundos. Suponho que é daí também que nascem as principais tensões, que se arrastam muito tempo; e muito mais a dissiparem-se.

A maioria dessas questões levam mais tempo a tomar um lugar estável, talvez até de lei, do que a vida inteira de um só homem. E quando ganham esse estatuto, demoram o mesmo tempo a abandoná-lo.

O homem vive então em comunidade, da confrontação: com o seu tempo, consigo, com as outras culturas, etc. É nessa coexistência instável, que cada cultura tenta sobreviver, sempre temendo a extinção. É também aí, onde são abertas as novas frentes de pensamento. Por tudo isto, nunca nada está realmente resolvido – e para o qual muito contribui a nossa precariedade.

Felizmente somos mortais.

Nessa confrontação e porque o fazemos em comunidade, vivemos mais confortáveis. Mas é ao sujeitarmo-nos a uma curiosidade (que acho natural e biológica), que aumentamos inevitavelmente, nesse antagonismo, a fragilidade e o horror perante o risco de extinção dessa comunidade (que tem sempre mecanismos de regulação… mas houve quem presenciasse a queda do Império Romano!). Nesse sentido, podemos esperar do futuro, o melhor e o pior. Como homens seremos mais aperfeiçoados, evoluídos, etc., a viver em comunidade, mas numa sucessão de crises.

Há portanto dois lados principais.  O primeiro irremediável, na qual a curiosidade nos precipita; no outro lado, o labor meticuloso de cunhar o tempo, sempre de braço dado com a história e as “ideias-lei”, e em assegurar a rede de conexões e de comunicação geral.

Curiosamente, ambas as atividades que se desenvolvem em campos opostos, repelindo-se constantemente, têm no fundo um pacto fiel à sobrevivência dessa cultura onde se desenvolvem. Tudo o resto é petulância! E nesse sentido, quer a inteligência como a sensibilidade, ambos recortes genéticos inalienáveis (e se assim for!?), nos conduzem sem remédio, perante o perigo maior, expondo-nos à tarefa de sobreviver (como espécie, como comunidade), ao caos que nos ultrapassa e que cada tempo comporta.

Quando os fenómenos de exigência conceptual e visão de antecipação surgem, quase por acaso, sempre de surpresa, acabam naturalmente a confrontar definições sérias e a desqualificá-las. Acabam por se infiltrar noutras águas… e depois, ou falamos de engenharia e de diques, ou então de arte.

Nesse sentido a arte, à falta de palavra melhor, revela-se como uma forma de “mistério informativo”. E olhar uma obra de arte: é “estar projetado num tempo mais original, êxtase na abertura «epocal» do ritmo, que dá e retém”(1).

A máquina de reprodução contemporânea, por excelência, é a fotocopiadora. Da família do ready-made e da pop-art, trata-se de uma prática de reprodução para as massas, em regime de self-service. É uma verdadeira revolução… Benjamin falava da xilogravura e da litografia e demonstrava como o cinema e a reprodução da obra de arte iriam trazer repercussões retrospetivas importantes sobre a obra de arte. Quer dizer, nesse presente – o novo tempo da facilidade e uso da reprodução – colocariam novas questões. Mas ainda por cima, não era apenas ao presente (da arte e não só), mas também ao seu passado…! Teriam influência na perceção que temos no passado. A colocação deste dado é absolutamente novo ( e ao qual eu juntaria uma nova perceção do futuro: fazendo da história uma sucessão de ruturas, sem conexão umas com as outras).

Depois tenta diminuir este novo estatuto, que a revolução da cópia e da reprodução, perigosamente apetecível e político, alcançara. Fazia-o com um dado incontornável na altura: o aqui e agora! A existência única, a proximidade, a intimidade, etc, com o “facto” (a presença). Era isso que marcava o cunho da obra e a sua originalidade. Lançando a suspeita de que uma cópia, por melhor reprodução que fosse, estava sempre fora do seu tempo, e era apenas um “pastiche” (questão que hoje está longe da sua resolução).

Era nesse lugar – o aqui e agora -, que a história estava garantida e onde ela se cumpria.

 

 

(1) Giorgio Agamben, “L’Homme sans contenu”.