UMA JANELA, UMA PORTA, UM TESSERATO E O MUNDO [solo show]

UMA JANELA, UMA PORTA, UM TESSERATO E O MUNDO [solo show]
September 23, 2017 João Louro

UMA JANELA, UMA PORTA, UM TESSERATO E O MUNDO

23.09.17|04.11.17

GALERIA FERNANDO SANTOS, Porto, Portugal

 

As obras inéditas apresentadas neste projecto incluem-se no seguimento de investigações anteriores, que se centram na revisão do universo visual, na sobreposição de imagens (que produzem o novo “negro”), na desconfiança perante a imagem e nas possibilidades contemporâneas do invisual e do invisível.

É pois nessa margem, entre as questões fisiológicas da visão, naquilo que o cérebro acrescenta ao que o olho vê, e as questões que o artista coloca através da obra — e que falam desde o mundo na sua era de hiper-realidade e de hiperactividade —, onde se estabelece a área mais vasta da sua acção, que está presente também nestas quatro obras apresentadas.

No seu interesse pela arquitectura, em obras como as “Site Scenes”, a “Casa de Wittgenstein”, a “Casa de Buster Keaton”, entre outras, inscreve-se a obra “Hades” – a porta do reino do submundo. Na mitologia grega, Hades era o deus responsável por governar o mundo subterrâneo, um mundo sem imagens, na riqueza dos mortos e das suas almas.

Nesse grupo inclui-se também a “Janela”, uma janela empurrada contra a parede, suportada por um barrote fixo ao chão. Da pressão do outro lado, um sem-lado-de-fora, escuro e sobreposto que não permite a sua visualização. É provavelmente esse o ponto cego do mundo hiperactivo e hiper-real.

“Tesserato” é a obra que faz a ligação de todas as outras obras expostas. Trata-se de um hipercubo, um cubo na quarta dimensão. A reflexão feita ao longo do tempo através das “Blind Images” (um projecto inacabado), sobre a imagem e o excesso, desemboca na ideia de que o plano da imagem (ou da falta dela), que convoca a linguagem, se desenvolve e transforma-se em objecto. Nesta nova fase das “Blind Images” as inscrições do texto assumem posições inusitadas, assiste-se à sua desmultiplicação, em tesserato, e a entrada numa nova dimensão. A imagem é agora objecto e o texto é um pretexto. “They live by night,” um filme de Nicholas Ray, é o relatado neste primeiro tesserato.
A obra é acompanhada por um conjunto de estudos sobre papel, de aproximações errantes ao objecto exposto, sem precisarem o todo, numa flutuação, sem alto ou baixo, só silêncio e escuro.
Por fim, o projecto acaba no “Mundo”. Um planisfério em tela, nessa visão antropocêntrica que se desfaz. O mundo que cabe na palma da mão, papel amarrotado, dejecto de escritor.