A Mosca de Lindbergh [solo show]

A Mosca de Lindbergh [solo show]
December 31, 2018 João Louro

A Mosca de Lindbergh

24.01.19>16.03.19 

Galeria Vera Cortês, Lisbon

A exposição fala de Lindbergh e do voo solitário que atravessou o Atlântico, de Nova Iorque a Paris.

A bordo do Spirit of Saint Louis, Lindbergh lançou-se numa das maiores aventuras humanas, no que foi para muitos um dos maiores feitos da humanidade.

Até à data tinha havido várias tentativas falhadas de travessia do Atlântico. O Spirit foi o primeiro a ligar as duas capitais e serve de mote à questão da “forma” e do “conteúdo”.

Lindbergh sabia que para levar a cabo a tarefa de atravessar o oceano, qualquer excesso de peso, mais um piloto e equipamento extra, diminuiria não só o espaço disponível para o armazenamento de combustível, como aumentaria o seu consumo. A relação peso e armazenamento de combustível foi uma equação minuciosamente estudada e determinou a concepção do Spirit, que nasce de dentro para fora. Houve um “conteúdo” que determinou a “forma” e é aí que pretendo chegar.

A forma é a expressão do conteúdo. A forma é o conteúdo.

Em 1776, James Watt inventa a máquina a vapor e essa máquina inventa a revolução industrial. O mundo muda, e foi mudando rapidamente a partir dessa invenção. Nasce a fábrica, o êxodo para as cidades, o proletariado, o trabalho infantil, a desestruturação social no tecido da vida que estava ainda indefesa, assente num sistema feudal e colonial, onde o trabalho e o lucro eram encarados com tenacidade e severidade. Todos os argumentos serviam para aumentar a produtividade e a mão-de-obra infantil encabeçava a lista de recursos.

Uma das tarefas importantes que algumas crianças tinham em grandes fábricas era a manutenção e a limpeza das zonas exíguas das máquinas a que as mãos de um adulto dificilmente chegavam. Havia também os scavengers, que nas indústrias têxteis apanhavam o resto de algodão debaixo das máquinas e limpavam o óleo e a sujidade da maquinaria. E os piecers, crianças com a função de emendar os fios partidos, durante o funcionamento das máquinas. Este era um dos mais arriscados trabalhos nas fábricas têxteis, do qual resultavam variados acidentes. Ao fim de muitas lacerações, fracturas, mutilações e mortes, surgiram várias recomendações e foi promovida a necessidade de cobrir as máquinas e protegê-las, de forma a evitar mais desastres. Quando foi colocada a primeira protecção numa máquina nasceu o “design”. O último layer do conteúdo é a sua expressão visível. A forma passa a ser o conteúdo. É a pele que liga ao mundo exterior e a sua última instância. Quando Adolf Loos escreve o livro Ornamento é Crime, em 1908, tratavaeste tema. A forma deveria seguir a função (Louis Sullivan) e estaria confinada a essa condição. Tudo o resto seria dispensável e ornamento. A forma não seguiria nem a tradição, nem seria um capricho, seria uma função.

O avião monolugar Spirit of Saint Louis, desenvolvido a partir das ideias de Lindbergh, é um bom exemplo.

Lindbergh era um piloto experiente, trabalhava nos correios aéreos americanos, e contava com muitas horas de voo solitárias. Aceitou o desafio de um empresário norte-americano, Raymond Orteig, que fundou o Prémio Orteig, no valor de $25 000, que desafiava pilotos intrépidos a ligar em voo directo Nova Iorque a Paris (ou vice versa).

Alguns pilotos antes de Lindbergh já o tinham tentado, como foi o caso de René Fonck, um ás da aviação francesa na altura. Todos fracassaram.

Quando Lindbergh se lançou no desafio, identificou e discutiu com os seus projectistas e engenheiros uma série de requisitos que queria para o seu avião: para prevenir o excesso de peso, o voo deveria ter um só piloto; a cadeira no cockpit deveria ser muito pouco confortável, em vime, sem molas e sem qualquer ajuste mecânico, para evitar a sonolência de uma viagem longa; o vidro frontal no avião não existiria, para fugir à monotonia de um percurso sobre o mar e, ao mesmo tempo, ganhar espaço para o tanque principal de gasolina; por fim, fez questão que colocassem uma mosca no interior do cockpit para lhe fazer companhia mas, sobretudo, para o incomodar e impedir que adormecesse, numa viagem que teria mais de 30 horas seguidas (o voo durou 33 horas e 31 minutos).

Foram estes os requisitos que produziriam a última camada do conteúdo. A forma final do avião, determinada pelas ideias de Lindbergh, produziriam a aparência da aeronave, uma aparência estranha e inédita à época. Nada estava a mais. A forma final do Spirit era o produto de todas essas sobreposições do conteúdo.

A sua pele era a expressão desse conteúdo.