A PAISAGEM É O GRANDE ACONTECIMENTO

A PAISAGEM É O GRANDE ACONTECIMENTO
January 15, 2020 João Louro
  • Arte nas Barragens
Isabel Lucas
2019
in Sobre a Paisagem. Arte nas Barragens Portuguesas.

 

A Paisagem é o Grande Acontecimento.

(…)

Rumo ao mar do Sul.

A estrada é longa agora. A paisagem muda uma vez, outra vez, abre-se expande-se em cores cada vez mais claras. Mais de cinco horas, mais de quinhentos quilómetros. Continua a ser interior. Mas agora é luz.

Luz. Sem barreiras, até ao horizonte, quase a ferir os olhos, longe, muito longe, ideia de um infinito. O corpo dá uma volta de 180 graus e a luz mantém-se, mas cada vez mais suave nessa rotativa, e por fim filtrada, novo horizonte, mais perto, parece já ali e separável em cada um dos seus componentes. Água, azul, campos em vários tons, sinal de uma ou outra elevação, uma casa, uma aldeia ao fundo. Só que sempre, luz e uma frase a rasgar essa iluminação. ON A CLEAR DAY YOU CAN SEE FOREVER. Juntos, palavras, luz e a geografia do Alqueva compõem um poema.

João Louro fez várias visitas ao local. Discussões com a equipa de engenheiros da EDP e os engenheiros com quem costuma trabalhar “Eles têm um saber técnico que é fundamental para desenvolver um projeto desta natureza.” Depois da primeira fase de ideias e da segunda fase, mais técnica, com tentativas e erros “afinou” uma coisa para o sítio sem ferir. Nem a paisagem, nem os receios naturais da parte da engenharia. Chegou à frase. Perene, na tal ideia de perenidade mensurável aos olhos do homem, o contrário do efémero, com a barragem a ser veículo do universo artístico. João Louro descreve o momento de partida, quase o ponto zero a partir do qual tudo acontece. “Há uma espécie de memória do mundo, o substrato daquilo que existe. Eu queria muito trabalhar nesse sentido, com essa memória. Para isso, parte-se do princípio que o novo não existe; há só novidades, mas não há novo”, explica o artista que tem desenvolvido uma longa relação artística com a linguagem.

Como se produz então a novidade, ou qualquer coisa de novo? Através de associações que procura inéditas. Como a de casar frases com paisagens. “São os novos casamentos que produzem este novo”, conclui sobre o primeiro passo que o fez avançar para uma obra que fosse um registo estimulante para o espectador, o visitante. “Com ou sem arte, as barragens têm visitas porque as pessoas têm uma espécie de adoração pela engenharia e gostam do belo horrível”, diz João Louro sobre um fascínio que tenta entender a par com o lado lúdico da albufeira imensa, da fauna e da flora que a rodeiam. “Fazia sentido participar em toda esta aventura. A ideia que está sempre incluída nos meus trabalhos é a de que o próprio espectador possa de alguma forma interagir com a obra. Não só tirar prazer dela, mas que possa como que conclui-la”, continua, falando do que é ser leitor ou espectador de alguma coisa e essa relação ser um círculo de interações. E a cada olhar há um novo sentido. Como na releitura, no olhar uma e outra vez, as novidades que isso traz, como capas, camadas que se vão revelando. “Esse lado é para mim muito interessante, muito relacionado com a literatura, que o espectador possa incluir qualquer coisa muito pessoal. É a única forma, a meu ver, de contornar uma série de questões da arte contemporânea e autoral que é fundamental ultrapassar, defende o artista, que vê nessa envolvência emocional ou conceptual com a obra um dos estímulos para trabalhar na barragem do Alqueva.

Como pôr todos estes pensamentos numa frase? Criar o tal diálogo que João Pinharanda, curador do projecto, apontou como objectivo a cumprir? “Teria de ser uma frase desafiadora, suficientemente poética, porque a poesia é a parte da linguagem que inventa”, defende João Louro, dizendo que a linguagem é inventada através da poesia e só depois se desenvolve para coisas mais concretas. O escritor italiano Claudio Magris escreveu isso mesmo em Instantâneos, o seu mais recente livro publicado em Portugal. “…a poesia existe para nomear as coisas, ou seja, para criar os seus nomes.” Não se falou de Magris, mas a frase serve para reforçar a ideia de que para João Louro não fazia sentido outra coisa que não fosse ir ao encontro dos desafios técnicos, mas incluir qualquer coisa que falasse às pessoas que fossem ao Alqueva e, perante ela, pudessem sentir uma espécie de desafio.

Foi então pela palavra, o casamento de vários signos ancestrais, o alfabeto e a união de um conjunto de intenções. Invenção, poder ao espectador, desafio, vibração. ON A CLEAR DAY YOU CAN SEE FOREVER. “É uma frase pessoal que acabei por perceber que tem outras conexões e que faz parte da minha vida”, conta João Louro. “Lembrei-me de estar a olhar para o horizonte num sítio maravilhoso, com uma série de problemas à volta e uma série de felicidades à volta. Era um dia muito límpido. Esse pensamento surgiu e percebi que era muito importante para me tranquilizar e me lançar para a frente. On a clear day you can see forever é quase motivacional”, isto para dizer que a obra do artista surge da sua própria vida, a experiência que tem com as coisas. A frase não sendo nova ganhou ali poder. “Ganha poder brutal perante a máxima felicidade ou a máxima tristeza”, a frase a puxar os limites, que, como refere, “é o que está no âmago da literatura” e a faz central na sua obra plástica.

O tal belo-horrível contido numa frase ali partilhada à largura do paredão, definidora de outra linha, novo horizonte; a partilha de um autor que quer vê-la ser apropriada pela paisagem até ele, o autor, se apagar e ser incluída qualquer coisa da experiência de vida e quem a lê, de quem a vê. “Aí eu consigo escapar da questão autoral”, conclui. “A arte tem esta característica: envolve-se.” Casamento feliz? “Muito, acho”, sorri. E depois ri. “Foi uma epifania.”

 

E ao olhar prefere-se outro adjetivo, mais próprio, com a paisagem e tudo o que ela sugere. Contemplar. O horizonte, o futuro, o que está à frente e nenhuma legenda para isso, porque a arte, diria também João Louro, juntando-se a um coro de muitos artistas, dispensa isso, explicação, legendagem. A frase como ferramenta pessoal, mas indissociável do lugar. A Norte a frase teria sido outra, concede. “O lugar dá pistas e não precisamos de o contrariar. Há coisas do lugar que devemos tomar como informação, substrato, incluí-las, e a partir daí, através do tal processo de tentativa e erro, encontrar o mais aproximado do que seria o certo.”

Estamos no presente histórico e neste presente constroem-se barragens e as barragens são amadas e odiadas. Não há indiferença perante construções assim. É João Louro que traz o presente histórico para a conversa. “É muito difícil olhar para o presente e ter um sentido crítico apurado sobre ele, falta distância. Mas quando olhamos para as pirâmides de Gizé nem se coloca a questão se interfere e de que modo com a paisagem. Não conseguimos ter essa distância critica em relação às barragens, como é óbvio. Mas se olharmos para trás percebemos que há grandes intervenções, como a muralha da China, que hoje em dia já se libertaram da interrogação acerca se foram ou não ofensivas. Quando as pessoas visitam simplesmente a barragem é por ser um trabalho humano de uma escala e de uma tal potência que nos sentimos envolvidos com a capacidade técnica do género humano, como de um sentimento de pertença perante obras transformadoras, complexas. Com o tempo não sei se estas intervenções não serão vistas como templos da cultura atual. Além disso, todas as intervenções, as pirâmides, a muralha, as barragens, são funcionais que num determinado momento se transformam num objeto de culto. Faz parte do género humano desafiar as leis, as lógicas.” Desta forma João Louro explica a razão pela qual intervir numa barragem não lhe traz questões éticas. “A ética, neste caso, surge porque não conseguimos estar suficientemente afastados do objeto para tecermos uma consideração imparcial.”

Aí, nesse mundo quase sem horizonte – ou de horizonte quase total – que é o Alqueva, João Louro propõem-se desafiar os tais limites ou a lógica ao escrever em caracteres gigantes ON A CLEAR DAY I CAN SEE FOREVER. Como? “Estamos ainda no paradigma romântico, ainda não desapareceu, e caracteriza-se sobretudo pelas questões do autor. A assinatura, o estilo, tudo isso faz parte desse paradigma. Se calhar é um desafio de desafiar a lógica, mas eu tenho sempre uma grande vontade de superar o paradigma romântico para olhar para a arte contemporânea, ou o que será o futuro da arte contemporânea. Se conseguir eliminar os princípios que estão na base do paradigma romântico, seu eu tentar ultrapassar isso, libertar-me da necessidade de reconhecimento, colocando o espectador quase no lugar do artista que conclui a obra, consigo escapar-me desse paradigma; sou capaz de me colocar numa posição em que não há caminho à frente, estou a fazer o caminho.”

O facto de a obra estar fora de um espaço museológico, de quem passar poder nem sequer pensar que aquela obra tem um autor, surge-lhe como uma vantagem nessa tentativa de escape do “síndrome de reconhecimento de um autor” num determinado elemento que é o da obra artística. “Até ver, a única forma de contornar isso é pelo espectador. É ele que traz qualquer coisa de novo e faz com que a obra esteja aberta.”

Isso, superar a autoria não seria tentar apagar a memória? João Louro, o autor, tem um percurso, um estilo reconhecido por um público, uma assinatura. Quando pretende libertar-se disso não está a criar outra marca, João Louro, a tentar desaparecer? “Não estou a dizer que já consegui alcançar a fórmula. Na tentativa de desaparecer aparece-se. A imagem hoje está presente em todo o lado, constantemente. Não há lado de fora, não há revolucionário suficientemente inteligente que consiga manter-se do lado de fora. Isso não há. Estamos todos do lado de dentro. Apesar de ter essas preocupações admito que seja complexo ficar do lado de fora porque eu nem sei onde é que esse lado está, mas a questão interessa-me e é por isso que parte da produção da minha obra chamada Blind Image é exatamente isso.”

Nesse trabalho de 2015, João Louro faz uma espécie de revisionismo da cultura da imagem usando nada mais do que a linguagem escrita. A lógica da sua intervenção no Alqueva segue essa direção. Uma seta apontada a um tempo e a uma geografia onde cabe a ilusão. Como quando se pergunta acerca de uma placa do seu atelier, em Campo de Ourique. Nela lê-se Praga, 6200 quilómetros. A partir de onde? “A partir da pessoa que está em frente à placa”, responde. Volta a Blind Images. “São obras apagadas, sobretudo pelo cansaço de ver imagens. Chegou um momento da minha vida em que achei que não havia necessidade de mais imagens e só quero trabalhar com as imagens que os outros já têm dentro de si; o nosso acervo particular é brutal e não me interessa nada mostrar qual a minha visão da Brigitte Bardot. Interessa-me saber qual é a imagem da Brigitte Bardot que cada um tem dentro de si.

Se eu digo este nome e tenho a sorte que a linguagem menciona coisas e me transporta, a sorte de ter a linguagem, a palavra, não preciso de acrescentar mais imagens. Basta-me mencionar. O cérebro cria imagens, tem horror ao vazio. Eu não quero acrescentar mais nada. Só quero que o outro acrescente qualquer coisa.”

ON A CLEAR DAY YOU CAN SEE FOREVER é uma frase que convoca imagens e ela mesma está inserida em múltiplas imagens. Conceptual, diz João Louro, “é podermos conceber dentro da nossa cabeça a partir de um conjunto muito curto de símbolos” para completar uma ideia anterior. “Quando digo que o novo não existe a prova está no alfabeto: um conjunto limitado de símbolos a partir do qual inventamos mundos. É fabuloso perceber que uma coisa finita produz infinito”. FOREVER contem esse infinito temporal que o espaço ali sugere, uma magia que não vem da feitiçaria, apesar das palavras das feiticeiras. É a magia da viagem, a linguagem que serve para transportar, para abrir caminho.

João Louro fala no que o artista tem ao seu dispor, e que inclui tudo. Desde os sentimentos a uma viagem a um sítio concreto. A originalidade cria-se a partir da seleção do modo como usa as mesmas ferramentas. “O artista é um escriba e escreve sobre si e sobre o seu tempo “, salienta este que se diz um artista compulsivo, com mais temas do que tempo para os trabalhar, seja para um museu, uma galeria, uma obra para um lugar como o Alqueva. “Isso só aumenta o temor, talvez, o de criar para gente que não vai para ali para ver arte, mas também pode ir”, e deparar-se com letras em aço corten, “um aço que trabalha com o tempo, justamente; dependendo da humidade e das condições climatéricas, altera-se, uma patine ferruginosa. Não é uma coisa que esteja cristalizada, especifica. São como letras vivas sobre uma estrutura metálica e correm ilusoriamente sobre a água, dando a ideia de estarem suspensas. Como se se adequassem à marés que sobre e descem, às estações do ano, à luz de Verão e à de Inverno. Quem está dentro do lago, vê a frase correr ao contrário. A escala é a da barragem. Avassaladora. Ocupa a zona do parque de estacionamento. Faz-se um caminho, anda-se mesmo até ao fim e descobre-se a frase e ela corre. “A escala é o que em arquitetura se chama o correcto”, acrescenta João Louro remetendo para a sua formação inicial. O espectador que não chega ali preparado é confrontado. Se a arte for boa faz isso. A arquitetura também. João Louro diz que, também por isso, há um grau acrescido nas intervenções públicas seja em ambiente urbano ou não. “A boa arquitetura abraça a cidade”, diz isso da arte pública do modo como a entende, criadora de felicidade, que pode interpelar, “mas não agredir”. Por isso, “a obra que não está dedicada a um espaço museológico aumenta o grau de responsabilidade do artista”.

ON A CLEAR DAY YOU CAN SEE FOREVER, quase oitenta metros de comprimento no muro de contenção da barragem, é um bilhete para viajar, na liberdade com que o autor a conceber. João Louro quando pega nesse bilhete transporta-se à memoria em que ela lhe surgiu. É o João Louro espectador. Que por instantes se consegue abstrair de tudo o que sabe sobre cada signo, da história que a frase carrega. “A minha ideia inicial foi também a de poder criar ali uma espécie de álbum de família. Por exemplo, uma pessoa que se chame Raul pôr-se ao lado da letra R e fotografar-se. As pessoas gostam destas associações. Mas como a frase estava a uma determinada altura, que era a que eu achava mais humana; já havia ali grandiosidade que bastasse e queria que as pessoas se aproximassem, mas houve uma série de acidentes, pessoas com as cabeças partidas por se aproximarem demasiado. Tivemos de subir mais, de modo a que as letras não ficassem à altura da cabeça.” Há gargalhadas. As letras – seguras com uma sapata gigante em betão, continuam a poder ser tocadas, ser contornadas. Não há fronteira. A viagem continua sem sobressaltos. Do lago consegue-se contemplar a frase n sua plenitude, mas ao contrário, outro desafio. E outra vista: dos montes, mensagem ao longe, com palavras méis e menos sublinhadas, conforme a perspectiva, jogos com letras que podem desaparecer momentaneamente. A planura do parque de estacionamento traz a frase completa, não de frente, mas está lá. Eterno jogo, “o poder atómico da palavra”, chama-se João Louro. Como o desgoverno da caligrafia infantil, que separa letras e cria novos sentidos, possibilidades. Crie-se uma fenda numa palavra e talvez haja magia.

(…)